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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Amputações...


"Quando o filme 127 Horas estreou no cinema, resisti à tentação de assisti-lo. Achei que a cena da amputação do braço, filmada com extremo realismo, não faria bem para meu estômago. Mas agora que saiu em DVD, corri para a locadora. Em casa eu estaria livre de dar vexame.

Quando a famosa cena se iniciasse, bastaria dar um passeio até a cozinha, tomar um copo d´água, conferir as mensagens no celular, e então voltar para a frente da TV quando a desgraceira estivesse consumada. Foi o que fiz.

O corte, o tão famigerado corte, no entanto, faz parte da solução, não do problema. São cinco minutos de racionalidade, bravura e dor extremas, mas é também um ato de libertação, a verdadeira parte feliz do filme, ainda que tenhamos dificuldade de aceitar que a felicidade pode ser dolorosa. É muito improvável que o que aconteceu com o Aron Ralston da vida real (interpretado no filme por James Franco) aconteça conosco também, e daquele jeito.

Mas, metaforicamente, alguns homens e mulheres conhecem a experiência de ficar com um pedaço de si aprisionado, imóvel, apodrecendo, impedindo a continuidade da vida. Muitos tiveram a sua grande rocha para mover e, não conseguindo movê-la, foram obrigados a uma amputação dramática, porém necessária.

Sim, estamos falando de amores paralisantes, mas também de profissões que não deram retorno, de laços familiares que tivemos de romper, de raízes que resolvemos abandonar, cidades que deixamos. De tudo que é nosso, mas que teve que deixar de ser, na marra, em troca da nossa sobrevivência emocional. E física, também, já que insatisfação é algo que debilita.

Depois que vi o filme, passei a olhar para pessoas desconhecidas me perguntando: qual será a parte que lhes falta? Não o “Pedaço de Mim” da música do Chico Buarque, aquela do filho que já partiu, mutilação mais arrasadora que há, mas as mutilações escolhidas, o toco de braço que tiveram que deixar para trás a fim de começarem uma nova vida.

Se eu juntasse alguns transeuntes, aleatoriamente, duvido que encontrasse um que afirmasse: cheguei até aqui sem nenhuma amputação autoprovocada. Será? Talvez seja um sortudo. Mas é mais provável que tenha faltado coragem.

Às vezes o músculo está estendido, espichado, no limite: há um único nervo que nos mantém presos a algo que não nos serve mais, porém ainda nos pertence. Fazer o talho sangra. Machuca. Dói de dar vertigem, de fazer desmaiar. E dói mais ainda porque se sabe que é irreversível. A partir dali, a vida recomeçará com uma ausência.

Mas é isso ou morrer aprisionado por uma pedra que não vai se mover sozinha. O tempo não vai mudar a situação. Ninguém vai aparecer para salvá-lo. 127 horas, 2.300 horas, 6.450 horas, 22.500 horas que se transformam em anos.

Cada um tem um cânion pelo qual se sente atraído. E um cânion do qual é preciso escapar."


(Martha Medeiros)

domingo, 9 de outubro de 2011

Visita...


"Eu sei que não foi você que desarrumou minha vida e fez essa bagunça toda que tive que arrumar gradualmente enquanto cuspia minha raiva, minha dor, mas, por favor, para entrar aqui agora é preciso pés descalços e nenhuma armadura. É por eu não ter deixado de confiar nas pessoas que te peço isso. Não existe tristeza em mais nenhum canto desta casa, tudo foi limpo e adornado com amor, saiba receber esta dádiva. Não quero saber agora o que você traz do seu passado enquanto a água do chá ferve, e também não me pergunte o que me aconteceu para que eu esteja assim, tão direta. É possível que eu te convide pra dormir aqui esta noite ou te mande embora às três da manhã, espero que não se aborreça ou crie expectativas enquanto ponho a erva doce na água quente. Eu não tenho açúcar, empedrou desde que. Enfim, você quer com ou sem adoçante? Não me prometa nada, eu vivo um dia de cada vez, só tenho memória recente. Sobre ontem, pouco lembro, sei que fui dormir e antes conferi se todas as portas estavam trancadas e se eu estava feliz. Também sei que ainda era cedo, e que fazia muito frio. Mas, sim, eu estava feliz.
Vou deixar apenas a luz do abajur acesa, e o seu cd de jazz tocando bem baixinho pra que eu escute como foi seu dia e o que você gosta de ler. Não é que eu não goste de me expor, mas a semana passada já faz muito tempo pra mim. Mas se te interessa saber, meu coração está desocupado e eu gosto quando você me abraça forte. Talvez isto seja o suficiente para que você chegue mais perto de mim e conviva sem se incomodar com o silêncio que eu carrego nos olhos. O que me atraiu em você foi a sua beleza física com esta sensibilidade e inteligência juntas.Mas aprendi a descartar até essas qualidades em um homem se não houver essa nudez de alma. Os inteligentes podem ser muito espertos e cruéis. Os bonitos podem ser uns tolos. E os sensíveis, muito dramáticos. Eu não estou endurecida, só aprendi a observar com certa malícia, preservo minha inocência, mas me arrancaram a ingenuidade à força, disso eu lembro. Não me fizeram mal algum, nada que não houvesse a permissividade da minha carência. A responsabilidade também foi minha. Você está confortável nesta posição? Aprendi a me enroscar num outro corpo como se eu fosse uma extensão dele. Eu gosto de me aninhar no afeto, nasci para ser acariciada antes, durante e depois do sexo. Mas hoje talvez eu queira que você vá pro seu apartamento_ me deu vontade de escrever alguma coisa sobre a sua voz, antes que ela fique no passado."

Se quiser esquecer seu cd, talvez eu te convide pra jantar amanhã. E te leia alguma coisa mais doce que aquele açúcar empedrado. É que eu ainda não esqueci como se escreve o começo de um romance. Só aprendi que o interesse do leitor vai depender da minha primeira frase.

Então eu prefiro que você volte amanhã. É que eu preciso sentir saudade antes de me apaixonar."
(Marla de Queiroz)



Ela, simplesmente, incrível!!!

sábado, 30 de maio de 2009

Divã...


É eu sei, um pouco tarde para quem é fã incondicional de Martha Medeiros. Porém tenho uma justificativa bastante coerente e compreensível...

Como eu disse, Martha não é uma escritora qualquer para mim. Seus textos mexem muito comigo, muito mesmo, vocês nem imaginam!
Bem, pelos posts anteriores vocês poderão observar que não andava muito bem, aliás nada bem e sabia que não tinha a menor condição de assistir Divã mal do jeito que estava, certamente eu sairia "pior" e entraria numa bolha de questionamentos sobre "ser/estar" infindável...
Seria o Caos total! Quase um suicído, uma auto destruição mesmo. (risos)
Quando escrevo isso, não é num sentido ruim.
O sentido de ser destrúida por um texto, filme ou qualquer coisa do gênero, é bem mais assustador...
É ter o interior exposto, a "hipocrisia desnudada", é ser desvendado, descoberto...

Enfim, precisava estar preparada psicologicamente para assisti-lo, precisei criar coragem para ir de peito aberto e pronta para as "porradas" que levaria.
Fomos quinta-feira, eu e minha irmã que também é minha parceira na hora das choradeiras com os textos da Martha...
Foi uma experiência incrível! Saímos dali de alma lavada e claro, chorando horrores como sempre acontece ao término dos seus textos...

Não posso deixar de comentar duas partes do filme.
A primeira, é aquela amizade entre a Mônica e a Mercedes. Lindo! Uma amizade como a nossa. Singela e verdadeira! (A Márcia disse que se eu fizer o que a Mônica fez, ela me enfia a porrada e vou para o caixão toda roxa... kkkkkkkkkkkkkkkkk), só para descontrair.

A segunda parte (e por isso a foto deste post), o diálogo final entre Mercedes e Gustavo, onde ela fala sobre o aprendizado dela com a morte de Mônica. O medo de deixar de falar o fundamental, de deixar pendências na vida...
Perfeito demais!!! Uma cena para se aplaudir de pé!(Chego ficar sem fôlego só de pensar nessa parte...)

Gente tenho tanta coisa para comentar sobre o filme...
O que seria a Mercedes feliz cortando o cabelo?
O que seria ela fumando um back?
O que seria ela na "vibe"?
O que seria ela tirando a meia de alta compressão?
O que seria ela deitada no chão deixando a chuva molhar seu corpo ao se "redescobrir" mulher?
O que seria ela andando com aquele vestido vermelho na cena final, poderosa e mais feminina do que nunca?

E para finalizar, o diálogo maduro e sincero entre Mercedes e Gustavo (já comentado acima).
Ela sabia que tinha um grande homem ao seu lado e também sabia que estava abrindo mão de uma "jóia".
Ela precisava falar o fundamental! Foi lá e não teve medo de se expor, falou para ele tudo o que estava sentindo. Mostrou que tinha ciúmes, mostrou que ainda tinha amor, sem vergonha, sem medo de ser julgada pois ela percebeu que não tinha a ver com o outro e sim com ela e que também poderia não ter mais tempo...


NÃO DEIXAR PENDÊNCIAS. Sem dúvida, uma das maiores lições deste filme!

Foi nítido o quanto eles rejuvenesceram, desabrocharam e principalmente amadureceram após a separação.
Eles tiveram coragem de parar na hora exata e não deixar a relação desgastar até chegar num ponto insustentável.
Aliás, definitivamente me convenci, de que amadurecer não tem a ver com a idade...
Uau! É para nos deixar nas nuvens mesmo, que lição!

Essa cena não poderia ser mais perfeita!
Eles se amavam porém não se completavam mais.
Também ficou claro que não é preciso odiar quem dividiu coisas tão profundas com você. Muito pelo contrário!
Por que temos que virar inimigos de quem foi por um período tão precioso nas nossas vidas? Ainda mais no caso deles que tinham construído laços não apenas afetivos, existiam frutos dessa relação, os filhos.
Óbvio que não é isso! Tem que ser muito medíocre para pensar assim não é não?!? (portanto, mais uma lição...eita!)

Bem, voltando ao diálogo, nesse pedaço também podemos observar que além da admiração, existia entre eles o principal, fundamental e cada vez mais escasso nas relações humanas: RESPEITO


RESPEITO!!!
É, tenho andado com a nítida sensação de que essa é uma palavra mais forte do que AMOR, pois a falta dele muda tudo!!!
Sem dúvida alguma eles não estariam sentados civilizadamente numa mesa se não houvesse respeito entre eles, mesmo se houvesse amor...

Sem dúvida no meu caso essa foi a maior lição que pude tirar do filme.
Já para minha irmã, creio que a lição foi poder testificar que é fundamental não sentir mais medo em falar o que é realmente fundamental!

Sim, eles eram de fato um para o outro, como um vestido Armani que ficou pequeno ou maior com o passar dos anos e já não lhes cabia mais tão bem...

Parabéns Lília Cabral! Você está magnífica neste papel... aliás, como sempre né?!
Agora, nesse papel de Mercedes você está simplesmente... EU! risos

Cada vez mais me convenço, de que os escritores, poetas famosos e não famosos e nem por isso menos talentosos, possuem mais do que o dom de brincar com as palavras... Eles são os únicos que possuem o dom de decifrar e "retratar" com exatidão o que vai no nosso interior. Nós até sabemos o que temos aqui dentro de nós, só não sabemos como exteriorizar...

Obrigada Deus por todos os escritores! :)

É, quero ir novamente!
Estou pronta para aprender novas lições e voltar para casa modificada. Para melhor, sem dúvida!!! Vou com aquele vestido vermelho usado só nas ocasiões mais que especiais... :)

Escrevi no meu orkut no dia que cheguei o seguinte:
"Hoje posso afirmar categoricamente que estou enfim "de alta" do meu analista. Totalmente livre das minhas neuroses, dos meus medos e o melhor sem nada pendente...
Só me resta o futuro!" - (por isso postei novamente o texto strip-tease, posso ir onde eu quiser pois não tem nada em mim pendente, nada em mim obscuro, estou completamente "nua" e pronta para ser mais feliz do que nunca!)

Que venha o futuro então!!!!!!!!!!!!!!